
(01/02/2021) – Entre as tantas polêmicas surgidas sobre vacinas e vacinação nos últimos dias, uma delas envolve o setor industrial. De acordo com notícia divulgada pela Folha de S. Paulo no último dia 25 de janeiro, um grupo de entidades empresariais reunidas no movimento Coalizão Indústria estaria negociando a compra de um lote de 33 milhões de vacinas da AstraZeneca. As vacinas adquiridas seriam destinadas metade para o Programa Nacional de Imunização e metade para os funcionários (e seus familiares) das empresas integrantes do pool.
O movimento Coalizão Indústria reúne mais de uma dezena de entidades. Entre elas, Abimaq (máquinas e equipamentos), Anfavea (automotivo), Instituto Aço Brasil, Abinee (eletroeletrônica), CBIC (construção civil), Abiplast (plástico), Abiquim (química) e Abit (têxtil), entre outras. O custo da aquisição desse lote de vacinas é estimado em US$ 4,4 bilhões – ou cerca de US$ 23 a dose.
A notícia não foi nada bem recebida por vários orgãos de imprensa e articulistas. A iniciativa foi classificada como “fura-fila”, como inflacionária, imoral etc. “Foi uma verdadeira artilharia contra nosso projeto. Infelizmente, a questão foi muito politizada”, disse José Velloso, presidente-executivo da Abimaq, que abordou o tema na coletiva de imprensa mensal da entidade, na última quarta-feira, com o objetivo de explicar o projeto das entidades.
Velloso destacou que as análises que viu na imprensa estavam baseadas em premissas falsas. Em primeiro lugar, disse, “só demos início ao processo após termos a convicção de que não estaríamos prejudicando ninguém na fila do SUS”. Isso porque, explica, a compra não seria feita diretamente da AstraZeneca, mas sim do fundo Black Rock, que investiu na fase de pesquisa e desenvolvimento dessa vacina, com a contrapartida de que, se desse certo, teria prioridade no primeiro lote de X milhões de vacinas.
“São estas vacinas – fabricadas em Oxford – que o fundo está oferecendo não só para nós como para outras empresas e entidades de todo o mundo”, disse, acrescentando que “se não comprarmos este lote ele será irá para um grupo de empresas da África do Sul ou da Arábia Saudita que estão, respectivamente, em segundo e terceiro lugares nesta fila”.
Quanto ao argumento de que esta aquisição estaria inflacionando o mercado – as doses da mesma vacina, vendidas para a Fiocruz, mas produzidas na Índia, saíram por cerca de US$ 6 -, Velloso argumenta que as vacinas não estão sendo oferecidas a governos, mas ao setor privado. “E isto é capitalismo, é lei de oferta e procura. O Black Rock fez um investimento de risco e agora está comercializando a sua cota para recuperar o investimento. E, hoje, existe uma corrida por vacinas no mundo… Me espanta que estejam sendo oferecidas por 23 dólares”.
Escassez de vacinas – Por outro lado, lembrou que o Brasil dispõe hoje de um número reduzido de vacinas, o suficiente para vacinar cerca de 6 milhões de pessoas com as duas doses necessárias, muito pouco para uma população de 210 milhões de habitantes. Com os atrasos nas entregas e a falta de insumos, a previsão é que até o final de março o país só contaria com 18 milhões de vacinas Coronavac (Butantã) e 2 milhões da AstraZeneca/Oxford (Fiocruz). “É muito pouco. São necessárias 30 milhões de doses só para o primeiro grupo prioritário”.
Em sua avaliação, caso o projeto do Coalizão Indústria fosse bem-sucedido, as vacinas chegariam em fevereiro e as 16,5 milhões de doses que seriam destinadas gratuitamente ao SUS contribuiriam concluir a vacinação do primeiro grupo de prioritários. “Além disso, estaríamos desafogando o sistema com a vacinação de cerca de 8 milhões de trabalhadores que estão no quarto grupo de prioritários”.
Velloso concluiu afirmando que, apesar das controvérsias, as negociações ainda estão em curso. Segundo ele, cerca de 300 empresas associadas já manifestaram interesse em participar do pool. Além disso, várias outras entidades de fora da coalizão manifestaram interesse em participar da iniciativa.
Notícias divulgadas no final da semana passada, por Valor Econômico e CNN Brasil, indicavam que – diante da repercussão negativa – grandes empresas estavam desembarcando do projeto.