São Paulo, 08 de julho de 2026

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16/04/2016

O Brasil pode criar uma Indústria 4.0 verde e amarela?

(17/04/2016) – Diretor regional do Senai de Santa Catarina e professor do ITA – Instituto de Tecnologia Aeronáutica com pós-doutorado na área de manufatura, Jefferson Gomes considera que em alguns segmentos a indústria nacional pode vir a dar “uma cara verde e amarela para a manufatura avançada”. Nesta entrevista à Agência CNI de Notícias (*), o professor explica o que vem ser Indústria 4.0 (ou manufatura avançada, termo que ele prefere utilizar) e quais os principais entraves para o Brasil entrar nessa nova era industrial.

AGÊNCIA CNI – Onde surgiu o conceito indústria 4.0?

Jefferson Gomes – A alcunha Indústria 4.0 é germânica. Os alemães usam o termo em função das três revoluções industriais já existentes. Essa atual, a quarta, é a fase em que as máquinas, baseadas em sistemas ciberfísicos, começam a tomar decisões de quando ligar, desligar ou de quando acelerar ou reduzir a produção no ambiente da manufatura. Enquanto o alemão chama isso de Indústria 4.0, os americanos e os chineses chamam de manufatura avançada.

Agência CNI – O que ela traz de novo para a realidade das empresas?

Gomes – É mais fácil entender se pegarmos casos específicos. A capacidade de processamento de um celular atual é milhões de vezes maior que a do computador que levou a nave para a lua. Lembre-se que usamos apenas 10% da capacidade de processamento desses aparelhos. Agora, coloque esses mesmos tipos de processadores num ambiente industrial. Da mesma forma, as máquinas atuais já têm muito mais capacidade do que está sendo, de fato, utilizado. Hoje a gente já poderia, como os mesmos equipamentos que temos, alcançar racionalização dos processos. Muitas empresas, no Brasil, já estão deixando a produção mais inteligente, fazendo com que esse processo de decisão seja acionado ou não. Recentemente, uma indústria com sede no Brasil fez um projeto de racionalização do uso dos equipamentos e reduziu o consumo de energia elétrica em 26%. Isso inclusive rendeu a ela um prêmio mundial. É uma prova de que, com os recursos já existentes, nós conseguimos deixar um sistema mais racional, seja gastando energia corretamente ou gerando menor quantidade de resíduos. Agora, a tomada de decisão pelas próprias máquinas vai demorar mais um pouco.

Agência CNI – Como você mesmo disse, a operação das máquinas nesse patamar ainda parece estar longe do que acontece atualmente na indústria brasileira, certo?

Gomes – Para fazer esse tipo de análise, as empresas precisam ser avaliadas em alguns quesitos, entre os quais inovação e a rede de instituições com as quais pode criar novos produtos. O Brasil tem grandes oportunidades para desenvolver as cadeias de valor em certos segmentos. No setor automotivo, até o quinto fornecedor da cadeia de suprimentos, em geral, são empresas multinacionais, o que dificulta o desenvolvimento de conteúdo nacional. Há setores em que isso é diferente. O Brasil é forte produtor da indústria de alimentos, cuja cadeia é extremamente complexa. Em Santa Catarina, por exemplo, esse segmento precisa importar milho. São cinco mil carretas de milho trafegando nas estradas do estado por dia. Isso cria uma cadeia logística, com uma sequência de fornecedores, inclusive pequenas estâncias. Essa realidade gera, portanto, uma necessidade logística e de comunicação que precisa ainda ser muito desenvolvida. É uma indústria fortemente intensiva em mão de obra. Portanto, pode ser desenvolvida também na área de equipamentos. No agrobusiness, há muito o que desenvolver. O controle de plantações com um grande número de drones, por exemplo, pode trazer uma série de vantagens. Há, sim, possibilidades em alguns setores e suas cadeias de valor para que a indústria avançada também tenha uma cara verde e amarela de desenvolvimento e não apenas uma cara europeia ou oriental.

Agência CNI – Quais são os desafios para o Brasil entrar nesse patamar?

Gomes – Para isso acontecer, temos alguns obstáculos. Hoje, nossos grandes entraves são de infraestrutura e política de inovação. As análises da eficiência da inovação têm alguns pilares, como infraestrutura básica, ambiente macroeconômico, qualidade de educação e de saúde dos trabalhadores, grau de formação e treinamento para os trabalhadores, eficiência do mercado, desenvolvimento do mercado financeiro para que se viabilizem os negócios. No Brasil, numa escala de zero a sete dos relatórios de competitividade global, beiramos algo por volta de 3,5 ou 4. O tamanho do mercado é enorme, é algo positivo, mas em todos os outros quesitos, o Brasil precisa caminhar.

Outro ponto importante é que, definitivamente, o Brasil não vai entrar nessa era tendo apenas 5% dos egressos no ensino superior formados em engenharia. Engenheiro aqui é um indivíduo com alta capacidade de conhecimento sobre um determinado assunto e alta capacidade de congregar conhecimentos com outros parceiros de trabalho. O ambiente da indústria avançada é altamente complexo. Há muitas variáveis atuando ao mesmo tempo: mercado, demanda, competidores. Na prática, o jeito que nós estamos formando pessoas para o mercado não está rendendo sucesso para produtividade das empresas nem mesmo agora. Talvez a gente não esteja olhando muito bem a qualidade da entrega desses novos profissionais – engenheiros e técnicos. Essa qualidade passa necessariamente pelo jeito como se forma.

Agência CNI – Como deve caminhar essa formação então?

Gomes – A gente está falando que uma fábrica sozinha decide se vai gastar energia agora ou não em função da produção que está acontecendo lá na China. Há um conjunto de informações. Não vai adiantar você conhecer só um pedacinho de um assunto. Vai precisar congregar com muita gente. Pra você entender isso, precisa saber como tudo se contecta. Na nossa formação, é tudo muito separado. Esse modelo de uma pessoa falando e várias escutando não vai contribuir para termos uma indústria avançada no futuro. Nos países onde a manufatura avançada já vem se desenvolvendo, o que acontece é o que chamam de sala invertida. Você estuda teoria em casa e vai para as salas de aprendizagem para desenvolver prática com pessoas de áreas diferentes e, muitas vezes, mudando de papéis. Consequentemente, essas pessoas terminam projetos de formação entregando protótipos de alguma coisa. No nosso formato de educação, a gente entende que bom é aquele aluno que aprende sozinho, tirou sua nota sozinho. Nós estamos falando de um sistema de TI que conversa com a parte mecânica, e que os supervisores dessas duas áreas vão decidir se, como e quando tudo vai funcionar. Tem de ter muita gente conhecendo vários assuntos e congregando esse conhecimento. Portanto, a manufatura avançada passa necessariamente pelo nosso processo de formação.

Agência CNI – Já existe algum setor no Brasil que está mais adiantado na indústria 4.0?

Gomes – O automotivo vai ser necessariamente o mais adiantado, inclusive ele pode transbordar a formação de trabalhadores mais adequada para os outros setores. O tipo de gente que vai trabalhar nessas empresas em um futuro muito próximo é bastante distinto de quem se formou há 20 anos. Precisa desenvolver uma capacidade de conhecimento constante. Uma saída é aprender com a indústria automotiva – que é a de maior eficiência tecnológica e que consegue ser moderna e regrada ao mesmo tempo -. Eles sabem exatamente que vai entrar uma peça e sair outra. Como há muita gente trabalhando no setor automotivo, temos a chance de transbordar isso para outros setores, como o óleo e gás, o subsea (plataformas subaquáticas), aeronáutica. A cadeia aeronáutica, por exemplo, tem um forte conteúdo nacional. Nosso programa aéreo nos permite desenvolver tecnologia para o próprio setor e seus adjacentes. Consequentemente, é uma baita oportunidade para aplicar conceitos de manufatura avançada.

Agência CNI – Que tipos de novidades isso deve trazer como impacto para os consumidores?

Gomes – O ponto é justamente esse. Se não houver exatamente o conhecimento do que o consumidor quer, não adianta ter a indústria mais avançada do mundo. Uma empresa vai partir para uma manufatura avançada se ela compreender o mercado que pretende alcançar. Recentemente, uma indústria de tênis norte-americana montou uma fábrica nos Estados Unidos. Essa indústria produzia tudo na China. Só que essa nova fábrica quase não tem gente. Você chega lá e quase prototipa seu próprio tênis: escolhe o tecido, a sola, a cor, o tamanho do cadarço. Tudo isso virtualmente. É lançado o pedido de produção e o tênis, tudo do jeito que você escolheu. O que está sendo vendido aí é a ideia de que o tênis está vindo para você. Isso está acontecendo com os táxis, a entrega de comida. Você os chama pelo telefone ou por um aplicativo e eles vêm até você. A tendência é que os produtos fiquem mais personalizados. Ao mesmo tempo, a gente vai ver mudanças no trabalho, com grandes indústrias mundiais cada vez mais automatizadas e supervisórias (empregados na supervisão e máquinas na produção). Por outro lado, você vai ter uma produção quase que artesanal e com alta capacidade tecnológica.

(*) Texto de Ismália Afonso, publicado pela Agência CNI de Notícias

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