(01/02/2021) – A reação indignada de dirigentes e empresários da indústria de transformação à defesa da desindustrialização feita pelo presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Carlos von Doellinger, pode ir além das simples declarações de repulsa. Alguns empresários estão defendendo que uma “resposta institucional” seja endereçada a Brasília.
Embora o comentário do presidente do Ipea tenha sido feito em caráter pessoal – dissociado, portanto, do discurso de reindustrialização adotado oficialmente pelo comando da equipe econômica -, para estes industriais ele não pode ser menosprezado, por vir de alguém que encabeça um órgão com grande influência na formulação de políticas públicas.
Na entrevista publicada pelo jornal Valor Econômico no último dia 19, Doellinger sustentou, sem meias palavras, que atividades de manufatura, com exceção do beneficiamento de recursos naturais, não são o melhor caminho para o desenvolvimento do Brasil.
De acordo com o presidente do Ipea, o país deveria priorizar setores onde tem vantagens comparativas – casos do agronegócio, mineração e energia -, citando a Austrália como exemplo positivo. Segundo ele, há cerca de 15 anos a Austrália acabou com a sua indústria de transformação para focar-se na agropecuária e na produção de minérios, tornando-se também uma potência em serviços e tecnologia.
Empresários de importantes segmentos da indústria de transformação reagiram imediatamente à fala de Doellinger, alguns de forma virulenta, como Fernando Pimentel, presidente da Abit, entidade que representa a indústria têxtil nacional.
“Estamos assistindo a uma discussão estéril que despreza um ativo valioso do país. É como se os industriais fossem um bando de idiotas que dependem de subsídio para sobreviver”, fulminou Pimentel, que ainda acrescentou: “Eu sou fã da agropecuária e tenho orgulho da posição do Brasil no mercado internacional de commodities agrícolas. Mas o setor agrícola sozinho não será capaz de tracionar a economia brasileira”.
Para o presidente da Abimaq, José Velloso, reduzir a indústria a setores em que há vantagem comparativa por abundância de recursos naturais, como sugeriu o presidente do Ipea, significaria desmontar parques de capital intensivo num país que já pouco investe. “Se a gente fizer um estudo de impacto disso, certamente o saldo será negativo”, afirmou.
Velloso também criticou o exemplo da Austrália usado por Doellinger. “Se isso fosse uma verdade, Japão e Coreia do Sul, que são países industrializados, não seriam economias desenvolvidas”, rebateu.
Já a Coalizão da Indústria, movimento que reúne mais de uma dezena de entidades do setor industrial, preferiu se posicionar comparando o papel da indústria e do agronegócio dentro da economia brasileira.
Neocolonialismo – De acordo com a Coalizão, a manufatura é desproporcionalmente atingida por uma “artilharia de impostos” na comparação com o agronegócio, e mesmo assim leva para os cofres públicos um montante equivalente ao dobro de sua participação no PIB.
A entidade apontou ainda a dificuldade de o setor industrial manter-se competitivo, citando um estudo do Movimento Brasil Competitivo (MBC), segundo o qual produzir no Brasil custa anualmente R$ 1,5 trilhão a mais, cerca de 22% de nosso PIB, do que na média dos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
“Mas, apesar de todas as dificuldades, nosso parque industrial contribui para os melhores indicadores socioeconômicos, de distribuição de renda e educação, como se vê no interior de São Paulo, Santa Catarina ou Rio Grande do Sul. E mesmo assim sofre críticas de pensadores desatualizados, defensores, ao que parece, do neocolonialismo”, afirma o texto.