
(12/05/2019) – Durante a Expomafe 2019, realizada na semana passada no São Paulo Expo, foi realizado o Roadshow VDI: Aplicação de diretrizes oficiais alemãs à Indústria 4.0 no Brasil. O evento reuniu empresas em diferentes níveis de maturidade na área da transformação digital para tratar sobre o papel das diretrizes no processo de transição.
O Roadshow contou com a presença de Ivo Yoshida, diretor na Valpri; Raquel Goulart, especialista na gerência de tecnologia de automação e inovação na Klabin; Daiani Nogueira, head of South America Basf Smart Manufacturing; e Emerson Antonio, especialista em E&I e Automação na Basf.
O diretor executivo na VDI-Brasil, Johannes Klingberg, abriu a programação abordando a importância de se embasar o uso de tecnologias digitais em um planejamento estratégico. “Desde 2011, quando o termo Indústria 4.0 foi utilizado pela primeira vez, em publicação da VDI, o conceito se expandiu no mundo de maneira considerável. No entanto, muitas empresas ainda o consideram como um projeto de TI e se frustram com o resultado obtido”.
Desta forma, “surgiu a necessidade da elaboração de um documento que as orientem nessa transição. Atualmente, mais de 12 mil membros da VDI na Alemanha, incluindo representantes da indústria, academia e governo, trabalham ativamente na construção de diretrizes técnicas (guidelines). Entre elas, está a diretriz VDI/VDE 4000, que trata especificamente do processo de implementação da Indústria 4.0. O objetivo é produzir um documento que estabeleça um conceito comum para todos os usuários de tecnologia digital. A previsão da publicação é para o fim de junho”.
VALPRI – Para destacar a questão da digitalização nas pequenas empresas, Ivo Yoshida, diretor da Valpri, empresa de embalagens plásticas flexíveis, situada em Campinas (SP), abordou as ações realizadas para superar a falta de ferramentas e técnicas de qualidade e produção por meio da utilização de práticas de Indústria 4.0.
“Há pouco mais de seis anos, a Valpri ainda estava na Indústria 2.0. Praticamente, todas as ações eram realizadas manualmente e não havia coleta de dados para análise. Com base nesse cenário, perguntamo-nos se era possível saltar direto para a Indústria 4.0. Para isso, tivemos como base dois pontos: atualização tecnológica e gestão de pessoas, com mudanças na cultura organizacional”, informa.
No sentido de atualização tecnológica, os primeiros passos rumo à digitalização da empresa foram dados com a implementação da tecnologia RFID, utilizada para identificar e registrar os motivos das paradas não programadas das máquinas que ocorrem durante a produção, o tempo de ociosidade e outras informações relevantes. O uso de cartões RFID tornou possível a coleta de dados que fornecem uma visão holística da empresa, detectando os pontos que deveriam ser melhorados.
“Um dos grandes desafios para as pequenas empresas é a questão dos recursos. Sem a possibilidade de fazer altos investimentos em tecnologia, utilizamos uma ferramenta com valor relativamente baixo e que fez toda a diferença na produção. Apenas com a implementação de uma tecnologia simples, porém mantendo a visão holística de implementação, conseguimos diminuir em 50% o tempo de ociosidade e aumentar em 25% a produtividade de equipamentos com o uso dos cartões RFID”, diz Yoshida.
Yoshida ressaltou, ainda, a importância da consultoria técnica produtiva que a Valpri recebeu do IPT e de consultoria organizacional, que capacitou e mobilizou a equipe em torno de um objetivo comum. “As consultorias externas que recebemos nos últimos anos estão sendo muito importantes nessa fase. A Indústria 4.0 não trata somente da utilização de tecnologias, também deve haver um esforço na gestão de pessoas e na cultura organizacional. Nesse âmbito, a participação de um consultor que entenda as dificuldades das pequenas empresas e saiba lidar com as fronteiras da Indústria 4.0 faz toda a diferença”, concluiu.
KLABIN – Em seguida, Raquel Goulart, gerente de tecnologia de automação da Klabin, demonstrou como a empresa está realizando múltiplas ações em suas 19 fábricas com o intuito de aplicar as práticas de Indústria 4.0. A gerente destacou a parceria com a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) na criação de uma especialização para desenvolver os colaboradores na utilização de práticas 4.0 para solução de problemas e implementação de sistemas.
“A transformação digital se fundamenta em três pilares: pessoas, processos e tecnologia. Entendemos que a questão vai além da tecnologia e, por isso, iniciamos, em agosto do ano passado, o ‘Indústria 4.0 in Company’ na Klabin, em parceria com a UTFPR, que reúne profissionais de diversas áreas, como gestão, compras, TI, controladoria, manutenção, entre outros, agregando visões de campos diferentes, o que é muito importante para o processo”, destacou.
Simultaneamente à especialização, a Klabin trabalhou em uma análise interna para mapear os gargalos em cada área, identificando possíveis ferramentas e ações para solucioná-los. Por meio dessa avaliação, foram priorizados sete projetos: medição de consumo específico de madeira, inovação em segurança do trabalho, utilização de AR e VR, monitoramento de predição de bombas, conexão de informações da área florestal e planta industrial, predição de eficiência energética e, por fim, o Cookpit operacional na unidade de Monte Alegre (PR).
Com a priorização de projetos, foi criada uma gerência de tecnologia da automação, que tem a missão de promover a digitalização nas unidades da Klabin, além da formação de um Comitê Multidisciplinar de Transformação Digital para discutir o desenvolvimento de soluções, abordando pontos de vista de diferentes setores.
“A nossa Unidade Puma, inaugurada em 2016, conta com tecnologias avançadas no setor e, recentemente, anunciamos a expansão da fábrica, que será o maior investimento da história da Klabin, de R$ 9,1 bilhões, ou seja, é um cenário totalmente favorável para a transformação digital. Em contrapartida, ainda temos fábricas que foram construídas nos anos 60 e é um desafio aplicar essas práticas em unidades com culturas diferentes”, afirma Raquel.
BASF – Na sequência, Emerson Antonio, especialista em E&I e Automação na BASF, encerrou as apresentações ilustrando as aplicações de Indústria 4.0 em empresas multinacionais, com foco em ações específicas realizadas na fábrica, abordando as particularidades encontradas no Brasil.
“As ações da Basf em Indústria 4.0 são globais, portanto, temos um portfólio de soluções 4.0 que são aplicadas em todo o mundo. No Brasil, estamos trabalhando, nos últimos cinco anos, em algumas soluções específicas, baseadas nas dificuldades que temos. Uma das principais ferramentas implementadas, nesse sentido, é a Realidade Aumentada voltada para a manutenção. Por se tratar de uma indústria química, há um obstáculo na questão do uso de dispositivos móveis em atmosferas exclusivas”, observa.
Outro entrave encontrado pela empresa no País se deu na certificação dos dispositivos importados para utilização nas fábricas. “Para utilizar a Realidade Aumentada nas fábricas, nós implementamos o HoloLens, porém, o dispositivo não é comercializado no Brasil e, portanto, não possui certificação local. Para importar os equipamentos, é necessário obter uma autorização da Anatel, o que é um processo demorado. Nós só conseguimos essa autorização uma semana antes do HoloLens ser descontinuado. Esse é apenas um dos vários desafios encontrados”, concluiu.