(16/08/2015) – A desvalorização do real frente ao dólar – cujo valor rompeu pela primeira vez em dez anos a barreira dos R$ 3 no último mês de março, e vem agora oscilando em torno de R$ 3,50 – está ajudando o setor de bens de capital a exportar um volume consideravelmente maior de máquinas e equipamentos para a Argentina, o principal parceiro comercial do Brasil na América Latina.
De acordo com Klaus Curt Müller, diretor de comércio exterior da Abimaq, o crescimento do “quantum” (volume físico) das vendas de máquinas para a Argentina foi de nada menos do que 33% na comparação do primeiro semestre de 2015 com igual período do ano passado.
No entanto, também por conta da desvalorização do real, a receita em dólar advinda das vendas para o país vizinho recuou 2,97% no período, já que a moeda americana está custando bem mais do que antes.
Por causa disso, segundo a consultoria argentina Abeceb.com, o intercâmbio comercial total entre os dois países deve recuar de um pico de US$ 39,6 bilhões em 2011 para US$ 27,1 bilhões em 2015.
“Mas não há dúvida de que mesmo assim o setor de máquinas saiu ganhando, já que passamos a ocupar uma fatia mais significativa do mercado argentino”, diz Müller. “E esse crescimento vai estimular muitos fabricantes que estavam focados em áreas específicas do mercado interno – como a de petróleo e gás – a tentarem iniciar ou aumentar a sua participação nas exportações para a Argentina”.
Segundo Müller, os efeitos positivos da alta do dólar podem ser verificados também nas exportações globais de bens de capital brasileiros, que registraram no período uma queda financeira de 13%, mas de somente de 2% em volume, apesar da crise econômica que, na prática, vem afetando todos os continentes.
Já na América Latina como um todo, no segundo trimestre de 2015 houve um crescimento de 13% no quantum, diante de um recuo de 9% na receita em dólar, resultado que Müller considera excelente no que diz respeito à abertura de mercados.
“É o que a Abimaq vem dizendo há anos: com um real menos valorizado, podemos exportar muito mais do que exportamos. A indústria de bens de capital brasileira tem inclusive tradição nessa área, já que, historicamente, sempre exportou de 30% a 40% da produção. Só estava precisando de um respiro cambial”.
Müller acredita que o cenário continuará favorável às exportações do setor, na medida em que há poucos sinais de uma revalorização do real nesse momento. O único obstáculo, a seu ver, está nos fabricantes chineses, que certamente tentarão aproveitar a já visível tendência de desvalorização da moeda daquele país, o yuan, para aumentar as vendas no subcontinente latino-americano.
“Porém, o Brasil tem uma vantagem em relação à China. Enquanto respondemos por menos de 2% do comércio internacional, a China é um gigante tanto em exportação como em importação. Uma desvalorização da moeda brasileira não aflige ninguém. Mas, da moeda chinesa, assume quase uma conotação de guerra cambial. Haverá muita pressão, principalmente da Europa e dos Estados Unidos”. (Alberto Mawakdiye)