São Paulo, 27 de Novembro de 2021

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    Crise hídrica aumenta a demanda por grupos geradores


    (17/10/2021) - A crise hídrica pela qual o Brasil vem passando está causando temor no setor industrial. Com os reservatórios em baixa, o risco de racionamento e falta de energia elétrica é motivo de preocupação dos empresários, justamente num momento em que a indústria nacional vinha se recuperando dos impactos da pandemia.

    Se traz riscos, a crise também traz oportunidades, pelo menos para os fabricantes de grupos geradores. De acordo com os fabricantes destes equipamentos, que podem ser utilizados como fonte primária ou secundária de energia elétrica, o mercado está aquecido, com tendência de alta. Dados da Abimaq - Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, indicam que as vendas no mercado de geradores subiram 129,27% no segundo trimestre de 2021 em relação aos três primeiros meses do ano e 26,63% maiores do que nos mesmos meses de 2020.

    Entretanto, a continuidade desse crescimento está ameaçada pela falta de insumos, em especial os semicondutores, aqueles componentes eletrônicos minúsculos que vêm causando estragos em vários setores industriais, com destaque para a indústria automobilística.

    Para entender um pouco melhor o quadro desse setor, o Usinagem-Brasil conversou com alguns dos principais players desse mercado.

    MWM Geradores - A MWM registrou aumento na demanda por grupos geradores. No entanto, de acordo com Cristian Malevic, diretor da Unidade de Motores e Geradores da empresa, o crescimento ainda não é proporcional ao tamanho do risco de ruptura no fornecimento energético e ao aumento das contas de energia elétrica.

    “Temos conversado bastante com nossos clientes e parceiros para que se planejem adequadamente com estoques de equipamentos e antecipação de pedidos, pois, em paralelo à crise hídrica, a cadeia de fornecimento de peças para motores e grupos geradores passa por um momento de restrição, fruto da retomada da economia global. Quem deixar para a última hora enfrentará uma longa fila de espera para entrega”, diz Malevic.

    Para acompanhar o ritmo do mercado, a MWM vem realizando investimentos contínuos. Na linha de montagem dos geradores, por exemplo, implementou melhorias de processos de fabricação, alterações técnicas de produto com padronizações dos componentes, balanceamento das atividades nas operações gargalo, além da expansão da capacidade de testes. De acordo com Malevic, tudo isso resultou em aumento significativo de produtividade, eliminação de desperdícios com retrabalhos, redução na quantidade de horas por unidade fabricada e duplicação da capacidade de teste de geradores.

    Visando atender a demanda prevista para este ano, a planta da MWM passou a operar em dois turnos de trabalho. Nos dez primeiros meses ano fiscal 2020 (nov/20 - ago/21), a MWM registrou alta na venda de grupos geradores em comparação ao mesmo período do ano passado. Para o fechamento do ano fiscal 2021, a expectativa é mais do que dobrar os resultados. Além do mercado nacional, a companhia exporta seus geradores para países da América Latina, África, Europa e Oriente Médio.

    FPT Industrial - Edinilson Almeida, especialista em Marketing de Produto na FPT, destaca que a tendência é de crescimento e que foram inclusive observadas demandas em novos nichos, nos quais os geradores de energia são usados para aumentar a produtividade e assegurar a segurança das operações.

    “Os geradores de energia da FPT Industrial podem ser utilizados nas mais diversas aplicações: hospitais, shoppings center, edifícios residenciais, canteiros de obras, indústrias, fazendas, estaleiros navais, plataformas de petróleo etc. A aplicação é realizada individualmente ou em conjunto, de forma interligada, garantindo um fornecimento ou complementando a geração de energia”, detalha Almeida.

    Atenta ao crescimento da demanda, recentemente a empresa disponibilizou diferentes opções de compra para geração de energia por meio de consórcio, Cartão BNDES para produtores rurais e Finame Não Rural. As facilidades de aquisição contam com o suporte do Banco CNH Industrial.

    “É importante destacar que como marca com mais de 55% das vendas voltadas ao mercado aberto, a FPT Industrial também fornece motores para geradores de outras marcas, como Himoinsa, Stemac, Generac e Pramac. Portanto, atuamos em diferentes frentes de mercado. Além disso, os nossos investimentos em desenvolvimento de produto e pós-vendas são contínuos. Nossas fábricas de Sete Lagoas (MG) e de Córdoba, na Argentina, estão amplamente suportadas para atender a demanda deste mercado”, conclui Almeida.

    Cummins - Desde maio deste ano, a Cummins tem observado procura crescente, mês a mês, na busca e em consultas por projetos de geração de energia por meio de grupos geradores. Segundo a empresa, há um aumento evidente na demanda por geradores que operam em regime de emergência. “É a segurança energética que as empresas buscam para se antecipar a um possível racionamento e evitar perdas com paralisações. Temos observado uma elevação em setores como hospitais, data centers, indústrias e agronegócio”, comenta Paulo Nielsen, líder da Cummins Power Generation.

    Conforme relatado por Nielsen, outra grande preocupação das indústrias é o horário de pico. “É neste período que as concessionárias cobram uma tarifa até três vezes maior do que o valor cobrado no restante do dia”, observa. Em sua opinião, empresas pequenas, médias ou grandes, que podem ter seus negócios prejudicados pela crise hídrica, devem investir em infraestrutura e buscar projetos com grupos geradores.

    Para 2021, a Cummins estima crescimento da ordem de 20% em projetos de geração de energia com grupos geradores. “O desafio é a falta de matéria-prima e de componentes ocasionada pela pandemia. Em caso de pico de demanda na produção, podemos recorrer às nossas outras plantas que temos no mundo, na Índia, China, Estados Unidos e Europa”, afirma.

    Segundo Nielsen, a empresa investe continuamente em tecnologia, no desenvolvimento de novos produtos e em inovação. Neste ano, investiu R$ 4 milhões na instalação de uma nova sala de testes de engenharia. Além disso, novos modelos de grupos geradores, mais compactos e econômicos, para atender diversos segmentos de mercado, serão lançados.

    No final de setembro, a Cummins lançou uma família de grupos geradores, produzidos na planta que mantém  em Guarulhos (SP). Segundo a empresa, a linha possui a melhor densidade de potência da categoria superior a 300 kW até 400 kW. O grande diferencial dos novos modelos, denominados C350D6B e C400D6B, é o motor eletrônico QSG12-G3/G4, que substituiu o propulsor mecânico NTA855-G5 da geração anterior. O novo motor, além de menor, é mais econômico, compacto, potente e com menos emissões.

    Stemac - De acordo com Valdo Marques, vice-presidente executivo da Stemac, a empresa vem monitorando desde o final do ano passado a ocorrência de uma possível crise no fornecimento de energia elétrica. “Essa crise não é de agora. Nós só não tivemos uma crise energética antes porque o Brasil entrou em depressão a partir de 2016. Em 2020, quando existia a expectativa de retomada econômica, veio a pandemia. Isso também freou o consumo de energia”, argumenta.

    O executivo destaca que a Stemac já vinha se preparando com relação à cadeia de suprimentos e que a empresa - que, segundo ele, conta com a maior capacidade instalada de fabricação da América Latina, de cerca de 20 mil grupos geradores/ano - está pronta para atender esse incremento na demanda. “Além da crise hídrica, existe um represamento nos investimentos, então é natural que as demandas cresçam”, aponta.

    Para 2021, a Stemac havia projetado um crescimento entre 25 e 30% em relação ao ano passado. “Porém, em um cenário como o que estamos passando, há um grande incremento por conta da necessidade do mercado. Precisamos pensar no crescimento a longo prazo, já que inicialmente teremos um boom nas vendas. Mas e os outros meses? São muitas questões que precisam ser analisadas quando se trata de crescimento”, ressalta Marques.

    Segundo Marques, a Stemac vem conversando com os seus clientes para que se planejem, se antecipem à crise energética, que pode causar uma corrida muito grande. “Neste afunilamento, temos receio de a indústria, no geral, não dê conta. Por isso, é preciso se planejar para passar por essa crise sem danos”, conclui.

    Grupo Sotreq - O revendedor oficial da Caterpillar informou ao Usinagem-Brasil que, desde o segundo semestre do ano passado, nota-se uma aceleração na demanda.

    Porém, “todos os fabricantes estão com a demanda represada e os prazos de entrega vem sendo impactados. Como alguns dos componentes são importados, os fornecedores estão com dificuldade na retomada rápida da produção ou na normalização do fornecimento, além do que enfrentamos ainda um grande desafio de logística internacional, já que estamos tratando de um fenômeno global”, explica Cristiane Izzo, gerente de energia da Sotreq.

    Segundo fontes, a Caterpillar possui investimentos aprovados para a ampliação da capacidade produtiva, porém a multinacional irá aguardar a normalização no fornecimento de componentes para dar início a sua implementação. (Reportagem de Sheila Moreira).