São Paulo, 18 de Abril de 2021

  • Notícias

    Mulheres na engenharia: manutenção e consultoria

    (04/04/2021) - Nesta semana, o Usinagem-Brasil chega à última matéria da série de reportagens, publicada durante o mês de março, sobre equidade de gênero na indústria e na engenharia. A série procurou mostrar que, apesar de algumas dificuldades e barreiras, as mulheres estão conseguindo conquistar espaços importantes nesses setores e na sociedade como um todo.

    Foram várias entrevistas com profissionais e empresas - que estão cada vez mais direcionando esforços para desenvolver iniciativas de inclusão da mulher no mercado de trabalho e em cargos de liderança. Mostramos mulheres atuando no chão de fábrica, em robótica, na engenharia e agora nas áreas de manutenção e consultoria. Conheça um pouco da história e atividades das engenheiras Josyane Sampaio, Veronica Campos e Dayra Liz Kwitko.

    Josyane Sampaio, analista de PCM na Vicunha Têxtil

    Josyane Sampaio é graduada em Tecnologia em Manutenção Industrial pelo IFCE - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará. Logo em seu primeiro emprego na indústria, em uma companhia siderúrgica, ela passou por algumas dificuldades relacionadas à equidade de gênero.

    Como trainee, Josyane passou por um treinamento para assumir um cargo, mas posteriormente foi impedida. “A empresa era composta por uma sociedade entre companhias brasileiras e coreanas. A vaga exigia conhecimentos avançados em siderurgia e o motivo alegado foi o de que os sócios estrangeiros não queriam empregar mulheres naquele setor”, conta a profissional. As trainees, então, seriam transferidas para um setor “mais leve”. Porém, para a transferência, Josyane teve que passar novamente por um processo seletivo e por outro treinamento.

    Transferida, Josyane começou como operadora de área e logo em seguida subiu para a função de basculamento. Depois de seis meses, a história se repetiu: seu supervisor informou que recebeu ordens de que o setor não poderia empregar mulheres, pois “era muito perigoso”. Josy foi transferida novamente sob a justificativa de que o ambiente era muito agressivo para mulheres. “Eu já tinha me dedicado tanto no basculamento, iria chegar a outra função como novata. Chegou um momento que não deu mais! Inclusive, voltei a estudar. Eu quase desisti da indústria, mas era o meu sonho”, recorda.

    Hoje, Josyane é estudante de Engenharia Mecânica no IFCE e passou a estagiar na área. Já passou por uma grande empresa do setor alimentício, onde atuou na manutenção. “Meu gerente sempre dizia que mulher na manutenção faz total diferença em termos de organização e planejamento”, destaca. Por conta da pandemia, Josy precisou atuar por duas semanas como supervisora do time de manutenção. “Foi um desafio muito grande. Eu percebi a urgência e fui proativa. Comecei a ir em reuniões, a organizar o time, entre outras funções”, conta. No período em que Josyane esteve como supervisora, o setor bateu o recorde de nove dias sem manutenção corretiva emergencial.

    Infelizmente, a empresa fechou por conta dos desdobramentos da pandemia. Por meio de indicações, Josyane teve acesso a muitas oportunidades. Em menos de um mês já estava trabalhando novamente, com a responsabilidade de implantação de PCM - Planejamento e Controle da Manutenção. Cinco meses depois, recebeu uma nova proposta e mudou novamente de emprego. Inclusive, no dia em que o Usinagem Brasil conversou com Josy, ela estava iniciando na Vicunha Têxtil, como analista de PCM.

    Veronica Campos, supervisora de manutenção preditiva na Vale

    Quando criança, por volta dos sete anos, Veronica Campos ganhou uma boneca patinadora, que parecia estar com um pequeno defeito. “Achei que a boneca estava mancando de leve. Um dia fiquei sozinha rapidamente e peguei a caixa de ferramentas do meu pai. Desmontei a boneca todinha e ela nunca mais voltou a funcionar. Acho que vocação pra engenharia vem desde pequena”, conta, rindo.

    Na adolescência, Veronica esteve em dúvida entre Engenharia Mecânica e Engenharia Genética. Optou pela primeira e hoje é engenheira mecânica, atuando como supervisora de manutenção preditiva na Vale, no porto de São Luis do Maranhão.

    A engenheira conta que depois de formada, começou a se candidatar em vários processos seletivos e pôde escolher onde trabalhar. Ingressou na Vale Fertilizantes como trainee de confiabilidade na cidade de Cubatão, em São Paulo. “Tempos depois, fui a primeira engenheira de confiabilidade da empresa. Sempre foram homens”, se orgulha Verônica.

    Depois de quatro anos, foi trabalhar na Dow Química, onde permaneceu dois anos como engenheira de confiabilidade. Em 2017, surgiu uma oportunidade na Alcoa, no Maranhão, para assumir duas plantas como engenheira sênior. “Trabalhei muito, era uma demanda bastante pesada e eu aprendi muito. Eu sou movida a desafios”, diz Veronica que na época percebeu ter habilidades para gerenciamento de pessoas e equipes.

    Uma outra oportunidade apareceu e Veronica retornou à Vale, agora como supervisora de manutenção preditiva, também no Maranhão. “Hoje eu estou à frente de uma equipe composta por 17 pessoas, com apenas uma mulher. Tenho vontade de ampliar a participação feminina na minha equipe, criar oportunidades baseadas em igualdade de gênero, desmistificar essa cultura machista ainda enraizada. A Vale tem muitos programas que caminham nessa direção”, diz.

    Ela revela ter sofrido um choque quando adentrou o mundo da engenharia, já que foi criada por uma família sem barreiras de gênero. No trabalho, Veronica prefere usar uniformes masculinos (mais largos) para evitar qualquer tipo de abordagem ou má interpretação. “Eu tento ser a mais neutra possível”, afirma.

    Dayra Liz Kwitko, consultora e co-fundadora da MEC

    Dayra Liz Kwitko é graduada em engenharia mecânica e pós-graduada em liderança e, também, neurociência. Hoje, atua ajudando profissionais de engenharia no desenvolvimento de soft skills - habilidades sócio-comportamentais - por meio da MEC - Mentoria para Engenheiros Consultores. Seu trabalho auxilia engenheiros a desenvolverem suas próprias consultorias, desde os passos mais básicos até a venda dos serviços.

    O interesse por aspectos comportamentais surgiu ainda na graduação, quando desenvolveu um protótipo de um exoesqueleto focado nos colaboradores de chão de fábrica, para correção de ergonomia. “Foi quando eu percebi que as hard skills não eram suficientes para o nosso projeto. Ficavam faltando quesitos relacionados à comunicação assertiva, liderança, resolução de problemas etc. Então, comecei a desenvolver isso em mim e nos meus colegas”, detalha Dayra, que ainda não tinha certeza se queria partir para a área de consultoria.

    Dayra optou pelas soft skills e começou a postar conteúdos em redes sociais. Os clientes começaram a aparecer e ela passou a participar de eventos da área, o que abriu portas para o lançamento de seus primeiros produtos. Aproveitando as oportunidades do mercado, ainda carente de consultorias na área sócio-comportamental, criou - junto com Pamela Mathias - o MEC, no início de 2020. Até o momento, a consultoria já formou quatro turmas.

    O fato de duas mulheres criarem uma consultoria para atender um nicho ainda bastante masculinizado gerou uma insegurança inicial. “Será que vão comprar da gente? Mas eu não deixei essa insegurança tomar conta de mim, foquei em todas as minhas habilidades para criar conexão com o público. Apliquei todas as soft skills que eu ensino para superar isso”, conta.

    De acordo com a consultora, atualmente não é possível construir uma carreira em engenharia apenas com habilidades técnicas. “O que faz a empresa acontecer é o ser humano, são as decisões que as pessoas tomam e, também, as relações que elas desenvolvem. Está tudo conectado com as soft skills. O profissional de engenharia, seja homem ou mulher, precisa desenvolver as suas habilidades sócio-comportamentais para ser, inclusive, mais competitivo no mercado de trabalho”, conclui Dayra. (Sheila Moreira)