São Paulo, 18 de Abril de 2021

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    Piora da pandemia deve afetar produção no 1º semestre

    (07/03/2021) - Apesar da recuperação da indústria ocorrida no segundo semestre de 2020, novos fatores colocam em xeque a continuidade desse processo. Entre eles, o agravamento da pandemia, os novos recordes diários de mortes e o regresso à fase vermelha em muitos estados. Assim, já há quem projete para 2021 uma repetição do ocorrido em 2020, marcado por um primeiro semestre de retração e uma retomada no segundo.

    O futuro do setor industrial esteve em pauta na live “O que 2021 reserva para a indústria brasileira?”, realizada na última quarta-feira, 03 de março. O evento foi organizado pela Becomex - consultoria especializada nas áreas fiscal, tributária e aduaneira que atua em toda a cadeia produtiva - e contou com a participação de Paulo Paiva, vice-presidente de alianças e parcerias da Becomex, e Luiz Carlos Mendonça de Barros, economista e ex-diretor do Banco Central.

    Na opinião de Barros, é muito difícil fazer projeções para 2021, principalmente porque a rapidez da retomada econômica está diretamente ligada à velocidade da vacinação, que no Brasil caminha a passos lentos. Ele pontuou que em 2020 assistimos a uma recessão motivada por uma forma “truculenta” de enfrentamento à pandemia. “Em uma economia de mercado é preciso ter liberdade de ir e vir, que é o combustível mais importante para a expansão. Se isso não acontece, há uma ruptura. Alguns setores se adaptaram mais rápido, outros foram atingidos de forma mais brutal”. O economista alertou que é necessário analisar a recessão com muito cuidado.

    Para o ex-presidente do Banco Central, a instituição financeira não entendeu em tempo ágil a recuperação em V da economia, já que usa como parâmetro para as suas intervenções as perspectivas do mercado. “Aconteceu que a grande maioria dos agentes econômicos não entendeu a natureza cíclica da recessão, projetando uma inflação muito baixa. O Banco Central fixou uma Selic muito baixa e demorou a reagir”, comentou. Ele acrescentou que o mercado não deve perder de vista o conhecimento gerado pela pandemia, o qual vai ter impacto de longo prazo. “A primeira dificuldade do empresário é separar essas duas coisas: o que é cíclico e o que é de longo prazo”, disse.

    Por conta da segunda onda do novo coronavírus, de acordo com Barros, alguns especialistas preveem uma repetição de 2020: PIB negativo na primeira metade do ano, porém com uma rápida recuperação.

    Câmbio e exportações - Paulo Paiva afirmou que atualmente o câmbio favorece as exportações e que o crescimento do Brasil passa por esse tipo de transação comercial. “O país precisa exportar cada vez mais produtos manufaturados, e não só commodities, para ser mais competitivo. Temos que depender menos das flutuações do dólar”, afirmou.

    O executivo da Becomex citou como exemplo a Toyota, que na última semana anunciou o fim da fabricação do Etios para o mercado nacional para produzir a versão híbrida do Corolla Cross. A intenção da fabricante japonesa é exportar o veículo (um SUV médio) para 22 países da América Latina. “O Brasil se transformar numa plataforma de exportação da Toyota é extremamente relevante”, ressaltou.

    “Estamos vivendo a fuga de capital e desvalorização do real, isso na indústria tem um efeito louco”, expôs Barros. Em seu ponto de vista, a taxa de câmbio real tem sido pouco discutida pela indústria, que está exportando e se “defendendo” dos importados. “Isso explica o PIB industrial ter sido maior do que outros setores”, disse. Para o economista, esse cenário ainda vai perdurar por bastante tempo, mas quando tudo for normalizado a vantagem da indústria tende a desaparecer. “Por isso, é o momento ideal para que o setor aproveite a bonança de caixa e faça mudanças de natureza estrutural”, completou.

    Ainda de acordo com Barros, a pandemia vai mudar a maneira como os negócios são feitos no mundo, já que a indústria nos últimos 20 anos - por motivos de redução de custos - deu prioridade para a importação de componentes. “Hoje, um container da China para o Brasil, por exemplo, está muito mais caro. Então, se jogar isso na cadeia, imagina o impacto que vai ter. Certamente vai ser introduzido um coeficiente de amortecimento na cadeia produtiva mundial”, analisou. Segundo ele, as empresas vão deixar de ir atrás de pequenos ganhos que aumentam os desafios de logística.

    Tributos - Paiva apontou que é uma necessidade retirar o Custo Brasil dos produtos exportados para que o Brasil não perca competitividade para outros países com taxas tributárias menores. De acordo com ele, é preciso reunir interesses da indústria para o desenvolvimento de projetos integrados utilizando algumas condições que o Governo Federal disponibiliza. “Temos muitos mecanismos para serem aproveitados, mas infelizmente a maior parte das empresas não desfruta disso”, comentou.

    Os economistas concordam que a reforma tributária, que atualmente tem três textos parados no Congresso, não deve sair em 2021. Ambos mencionaram que é preciso criar mecanismos para que os impostos deixem de ser cobrados ao longo da cadeia produtiva, levando os custos para o final do ciclo, o que melhoraria o caixa e aumentaria a competitividade das empresas.