São Paulo, 18 de Abril de 2021

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    Falta de insumos se acentua e preocupa indústria


    (07/03/2021) - Em setembro do ano passado, com a indústria registrando recuperação mais rápida que a esperada, começaram a surgir notícias de desabastecimento de insumos, em especial o aço (que já apresentava também forte elevação nos preços), mas também de outros produtos, como alumínio, plástico. Em reunião realizada com as siderúrgicas, em outubro, a Abimaq recebeu a informação de que a situação deveria estar regularizada até fevereiro.

    Fevereiro passou e o problema não foi resolvido. Ao contrário, se agravou a ponto de algumas indústrias já terem comunicado à entidade dificuldades para cumprir os prazos de entrega, diante de alguns gargalos justamente por falta de aço. O quadro atual levou a Abimaq a marcar nova reunião com as siderúrgicas, realizada na última quarta-feira (3 de março).

    De acordo com José Velloso, presidente-executivo da Abimaq, no encontro, que contou com a participação de representantes das principais siderúrgicas do País, as empresas atualizaram as informações sobre o estado da produção. Segundo as siderúrgicas, a produção foi ampliada (superando o nível pré-pandemia, com a utilização da capacidade proudtiva passando de 62% para 70,8%) e o volume de exportações foi reduzido, conforme acertado na reunião anterior.

    “Isso realmente aconteceu, mas foi insuficiente. Estamos vivendo o pior momento no que se refere ao abastecimemto de aço. Acho que nunca na história a nossa indústria viveu problemas tão graves de abastecimento de aço”, comenta Velloso.

    Por outro lado, o executivo considera que a reunião foi positiva. Algumas usinas se comprometeram a ampliar ainda mais a capacidade, caso da Usiminas, que informou estar prestes a ligar mais um alto-forno, enquanto Gerdau e Aperam informaram que estão realizando ajustes na produção para atender a demanda. Sobre o receio de um dos participantes sobre a possibilidade de retração no segundo semestre, Velloso lembrou que não só a indústria de máquinas vem registrando aumentos na produção e que o mesmo está ocorrendo no setor automotivo e na construção civil, grandes consumidores de aço. “Além disso, as distribuidoras, que costumam manter estoques para 3,5 meses, estão hoje com 2,1 meses de estoque”.

    120 DIAS - “A minha impressão é que em menos de 120 dias não teremos uma solução para o problema de abastecimento de aços”, comenta Velloso. As siderúrgicas têm visão semelhante, prevendo que a questão só estará solucionada entre junho e julho. Nas próximas semanas a Abimaq ainda fará uma reunião com a CSN e está sendo agendado um encontro com o Inda, entidade que reúne os distribuidores de aço.

    Outro problema é o custo do aço que na usina registrou aumento de 40 a 65% (dependendo do tipo de aço) desde o início da pandemia. Nas distribuidoras, que atendem em geral as pequenas e médias empresas, as altas ficaram entre 65 e 85%, com alguns casos superando os 100%. A justificativa das siderúrgicas está nos aumentos do minério de ferro (de quase 80%), sucata, carvão metalúrgico, além do câmbio.

    Para o setor de máquinas, o maior problema é que os fabricantes de máquinas e equipamentos têm dificuldade de repassar esses custos ao preço final e “não podemos esquecer que somos pressionados pela concorrência de máquinas importadas”.

    Na avaliação de Velloso, esse conjunto de dificuldades não deve impactar o desempenho do setor, que prevê crescimento acima dos 10% em 2021. No máximo, pode adiar o faturamento e, a exemplo do que aconteceu no ano passado, a maior concentração do aumento previsto fique para o segundo semestre.

    MONTADORAS SUSPENDEM A PRODUÇÃO - Já no caso das montadoras de veículos, outro componente tem travado o ritmo da recuperação: a falta de semicondutores. Este foi o principal motivo de a GM e a Honda terem anunciado a suspensão da produção. A GM deu férias coletivas em Gravataí (RS) e colocou os funcionários de um dos turnos em lay-off em São José dos Campos (SP). A Honda anunciou a paralisação da produção da fábrica de Sumaré (SP) por 10 dias, neste início de março.

    O desabastecimento de semicondutores é um problema global, com origem na Ásia, que concentra a maioria dos fabricantes de chips eletrônicos. A este se somam outros problemas trazidos pela pandemia, como as dificuldades logísticas, a grande diminuição dos voos de passageiros (o compartimento de bagagem é utilizado também para cargas) e o aumento dos fretes maritimos. Esse conjunto de fatores teve reflexos, claro, no preço, com aumentos de até 150%.

    A falta de semicondutores e componentes eletrônicos afeta não só as montadoras. Várias máquinas e equipamentos contam também com eletrônica embarcada. Já existem notícias de que o problema começa a afetar também os fabricantes de máquinas agrícolas e rodoviárias, setores que têm apresentado bom desempenho nos últimos meses e que respondem por boa parcela da expectativa de crescimento do setor de bens de capital em 2021.