São Paulo, 26 de Janeiro de 2021

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    Brasil segue na contramão do mercado global de robótica


    (20/12/2020) - Atualmente, 2,7 milhões de robôs estão operando em fábricas em todo mundo, de acordo com o relatório World Robotics 2020, elaborado pela Federação Internacional de Robótica (IFR). No ano de 2019, as vendas globais de robôs aumentaram 12%, chegando a 373 mil unidades.

    Embora esteja no topo do ranking dos parques industriais robotizados na América do Sul, o Brasil caminha na contramão do mercado global. O país contava em 2019 com 15,3 mil robôs em operação, 8% a mais em relação ao ano de 2018. No entanto, segundo a IFR, as vendas de robôs diminuíram aproximadamente 17% no país no ano passado, com apenas 1800 instalações.

    De acordo com a IFR, em 2019, a densidade global de robôs na indústria de manufatura foi de 113 para cada 10 mil trabalhadores. Os países com melhores densidades, segundo o relatório são: Singapura (918 robôs instalados por 10 mil empregados), Coreia (855), Japão (364), Alemanha (346) e Suécia (277). No Brasil, a média é de apenas 12 a 13 robôs para cada 10 mil empregados.

    DIVERSIFICAÇÃO - Edouard Mekhalian, CEO da Kuka Roboter do Brasil, conta que após uma drástica redução de despesas internas, a empresa está novamente encontrando o equilíbrio. Embora tenha sido afetada pela retração do mercado automobilístico, a Kuka colhe os louros de, há seis anos, ter iniciado um trabalho de diversificação do seu portfólio de clientes. “Os números finais de 2020 nos mostram que 80% de tudo que fizemos não se relacionam à indústria automobilística”, diz o executivo.

    Durante a pandemia, a Kuka passou a atender setores que se expandiram na crise, como o alimentício, de bebidas, farmacêutico, agronegócio, eletrodomésticos, entre outros. A companhia também atendeu um grande projeto de autopeças que esteve parado por seis meses, mas já foi retomado. “Com uma carteira diversificada os resultados positivos apareceram. As vendas devem fechar apenas um pouco abaixo do ano passado. Estamos satisfeitos, não houve prejuízo e nem grandes ganhos”, pontua Mekhalian.

    O diretor-presidente da Yaskawa Motoman, Icaru Sakuyoshi, lembra que muitos investimentos que estavam previstos para o primeiro semestre foram postergados para o segundo ou para o próximo ano. Ele menciona que, no Brasil, o setor automotivo responde por mais da metade do mercado de robótica. “Quando o setor automotivo investe, a robótica vai bem. Quando há retração, afeta o mercado de robótica”, explica. A Yaskawa também passou a atender outros setores em 2020. “Tudo indica que haverá um pequeno decréscimo em relação ao ano passado, em torno de 10%”, afirma Sakuyoshi.

    A ABB também sentiu os reflexos da suspensão de investimentos na área de automação e robótica. A companhia avançou no segmento de serviços, uma vez que várias empresas optaram pela manutenção de seus ativos nesse período de instabilidade. O cenário atípico também trouxe oportunidades nos setores de logística, cuidados pessoais, eletrodomésticos e embalagens. “Pelo fato de a ABB não ser somente uma fabricante de robôs, mas também oferecer serviços, peças e softwares em seu portfólio, foi possível equilibrar os nossos resultados no ano de 2020”, detalha Nelson Kumagai, gerente de Robótica da empresa. Em sua opinião, enquanto não houver um cenário positivo, em relação à pandemia, é difícil prever números para o mercado nacional em 2021.

    Na Fanuc, 2020 também ficou abaixo das expectativas em comparação aos anos anteriores. A média de crescimento da empresa estava na casa dos 30%, mas a empresa deve fechar o ano com o mesmo resultado de 2019. “São bons números comparando com outros segmentos”, analisa Felipe Ferreira, gerente de vendas. Segundo ele, neste último trimestre houve um aumento considerável nas solicitações, o que traz boas perspectivas para 2021. “De modo geral o mercado parece bem otimista em relação à retomada da economia, que demandará novos investimentos. As empresas entendem a importância da automação e isso abriu portas para outros mercados, como o setor alimentício e da construção”, argumenta. 

    MERCADO EMBRIONÁRIO c Mekhalian menciona que antes da pandemia, o Brasil já tinha um nível de robotização muito baixo em relação a países mais desenvolvidos economicamente, como Coreia, Japão e Alemanha. “Os números do Brasil são baixos e, muitas vezes, nem aparecem nos dados da IFR”, ressalta. Ele explica que os países mais robotizados não perderam o ritmo na retomada da produção: “A capacidade de retomada em uma fábrica automatizada é mais alta. Essa situação desfavorece os países que não estão neste nível tecnológico. O Brasil está em um cenário ainda defasado”, diz.

    Para Sakuyoshi, a robotização no Brasil ainda está em estágio embrionário. O baixo consumo de robôs no país, segundo ele, ajuda a entender porque a indústria nacional deixou de ser competitiva.  “Enquanto o mundo investe em automação e robotização, no Brasil ainda se investe muito pouco”, aponta. E complementa: “Como ser produtivo e ter competitividade com o mínimo de pessoas possíveis na linha de produção? Isso só é possível com robotização”. O diretor-presidente da Yaskawa Motoman acredita que a pandemia despertou a atenção do empresariado, de diversos setores, para necessidade da robotização. No entanto, “esse processo ainda vai levar alguns anos”, já que o investimento é moroso e a médio e longo prazo.

    O gerente de Robótica da ABB observa que muitas empresas precisaram paralisar a produção por falta de mão de obra, já que os colaboradores tiveram que entrar em quarentena. “Fica clara a necessidade das empresas se adaptarem à flexibilização de sua cadeia produtiva. A robótica oferece soluções que garantem flexibilidade aos processos produtivos, melhorando a qualidade da produção e simplificando as operações”.

    Felipe Ferreira, da Fanuc, reforça que as empresas mais automatizadas são as que saíram na frente na retomada da produção: “Os robôs vem agregar ao processo produtivo, trazendo mais eficiência e qualidade, além de tornar o produto mais competitivo devido à redução dos custos de fabricação”.

    POLÍTICA INDUSTRIAL - É consenso no setor de automação e robôs que falta apoio do Governo Federal por meio de políticas industriais, visto que a pandemia tornou ainda mais evidente a necessidade de investimentos na indústria. “Nesses meses muitas empresas perceberam isso, mas o mercado brasileiro é complicado para investimentos a médio e longo prazo. É preciso a elaboração de políticas de Estado que criem condições no mercado financeiro para investimentos em produção”, opina Mekhalian. Em seu ponto de vista, a automação e a robótica precisam contribuir com o desenvolvimento industrial do país e, também, com a população. Ele cita o exemplo de países asiáticos, como a Coreia, que investiu em educação para capacitar mão de obra, realocando os trabalhadores do chão de fábrica, que passou a ser ocupado por robôs, para outros setores da indústria.

    Sakuyoshi utiliza a palavra desamparo para descrever a situação do empresário brasileiro. “Eles sabem da necessidade de investimento, mas não existe apoio do governo, uma politica industrial forte e especifica que trate dos problemas da indústria brasileira. Não adianta o Governo afirmar que o mercado se autorregula e dar alguns subsídios, precisamos de uma politica que reúna associações, instituições de ensino e empresas do setor”, afirma o executivo da Yaskawa Motoman. (Reportagem: Sheila Moreira)