São Paulo, 26 de Janeiro de 2021

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    Setor de ferramentas prevê alta de 2 dígitos em 2021

    (20/12/2020) - O exercício de 2020 trouxe desafios até então desconhecidos. Com raras exceções, foi um ano de perdas. A pergunta agora é o que esperar de 2021? Fomos ouvir as empresas que atuam no mercado de ferramentas de corte para conhecer suas expectativas com o próximo ano, os principais obstáculos a serem superados, o ritmo da recuperação etc.

    Leonardo Barbosa, presidente da Iscar do Brasil, diz que a empresa espera aumento significativo da produção em 2021, tendo como referência os três últimos meses, marcados por forte alta na demanda, superando inclusive as vendas do período pré-covid. “A entrada de pedidos e a carteira para o primeiro trimestre de 2021 mostram a mesma tendência, bem como a entrada de novos projetos. Fato que fez inclusive nossa fábrica de ferramentas especiais operar em regime de horas extras”.

    “Acreditamos que o ano de 2021 será de crescimento, acima da previsão do PIB já divulgada para o ano que vem”, informa Fernando Pereira, presidente da Seco Tools do Brasil. Em sua opinião, este crescimento será impulsionado pelo setor automotivo, o principal consumidor de ferramentas de corte, entre outros setores. “Já o segmento aeronáutico é o grande desafio para o próximo ano”, diz, acrescentando que considera também como um sinal positivo a atual taxa de juros, que estimula a aquisição de máquinas operatrizes e bens de capital.

    “Ainda é muito incerto fazer qualquer previsão para 2021, mas a vacina já é uma realidade. Para nós, o momento é de otimismo e é realista dizer que nosso faturamento deve voltar aos patamares anteriores à pandemia”, comenta Marcelo Campos, diretor-geral da Kennametal para América Latina. O diretor destaca que os investimentos feitos pela matriz em suas várias fábricas, incluindo a brasileira, posicionaram muito bem a empresa “e em nenhum momento tivemos problemas para atender as demandas dos nossos clientes globais”, diz. Faz, porém, uma ressalva: o descompasso na indústria em relação ao suprimento de matérias-primas, o que pode reduzir as expectativas de forte crescimento para os próximos meses.

    Na avaliação de Kenya Sugihara, presidente da OSG Sulamericana, as expectativas são positivas, a depender, porém, de como será o programa de vacinação e a eficácia da vacina. “Nos preocupa também a falta de insumos (aços, plásticos), que implica em aumento dos prazos de entrega. E, como a demanda por esses produtos está alta, pode acarretar em aumento nos preços desses insumos, afetando nossos custos e os preços para o cliente final”, diz. Sugihara lembra ainda outro fator fundamental para os negócios em 2021: a variação da taxa cambial. “Como a previsão para 2021 é que o real se mantenha em um patamar desvalorizado, acreditamos que a indústria nacional será beneficiada”.

    OTIMISMO MODERADO - “Estamos moderamente otimistas em relação a 2021”, observa Cláudio Camacho, vice-presidente de Vendas para América do Sul e Central da Sandvik Coromant. O nível de atividade real do último trimestre, em sua avaliação, mostra que alguns segmentos já operam a toda capacidade e a indústria está voltando a discutir estratégias e planos de expansão para os próximos anos. “Podemos prever um crescimento importante para 2021, podendo até chegar aos dois dígitos”.

    “Apesar de ter sido um ano difícil, 2020 veio comprovar que os investimentos que fizemos em manufatura 4.0, ferramentas digitais e comunicação remota fizeram a diferença quanto à manutenção de nossos serviços nos momentos mais difíceis, e continuarão a ser uma base sólida para nosso desenvolvimento futuro”, afirma Camacho.

    A Ceratizit também estima crescer dois dígitos em 2021. Marcos Mantovani, diretor-geral da Ceratizit América Latina, lembra que a empresa chegou ao mercado brasileiro mais tarde que a maioria dos concorrentes. “Nos últimos anos nos preparamos para crescer sobretudo em Cutting Tools, no qual nossa participação ainda é pequena - se comparado aos segmentos de cilindros de metal duro, wear parts e metal duro para serras de madeira, nos quais estamos consolidados”.

    Na opinião do diretor, a preparação contribuiu para a alta no faturamento de 5% em Cutting Tools. “Apesar de estarmos em meio a uma crise de proporções nunca vistas, ganhamos participação no mercado”, diz. “Aproveitamos as oportunidades deixadas por concorrentes maiores e conseguimos colocar pacotes de ferramentas que não tínhamos tido anteriormente à crise.”.

    CENÁRIO POSITIVO - Para Salvador Fogliano, diretor-presidente da Walter do Brasil, antes de tratar de 2021, é preciso falar um pouco de 2020. “Desde agosto o mercado vem mostrando retomada gradual, principalmente nos últimos dois meses, quando a maioria dos segmentos industriais registrou forte crescimento, com exceção do aeroespacial”, diz.

    Em sua opinião, ainda é cedo para se afirmar se esta alta na demanda está relacionada ao aquecimento do mercado ou à demanda reprimida. “Não sabemos se a recuperação se manterá nos níveis atuais, mas estamos otimistas”, diz. “Vemos um cenário positivo, num momento de demanda crescente, no qual os clientes precisam de aumento de produtividade e redução efetiva de custo, um dos grandes diferenciais da Engineering Kompetenz da Walter”.

    RETOMADA DE PROJETOS - Renato Brandão, diretor de Vendas Dormer Pramet para a América Latina, ressalta que - apesar das incertezas que permearam todo o exercício de 2020 - o ano foi positivo para a empresa. “Percebemos a redução em alguns segmentos da indústria, mas em função da diversidade de nossos canais de vendas, conseguimos aumentar nossa participação de forma geral”, diz.

    Brandão demonstra otimismo com próximo ano, acreditando que os segmentos mais impactados em 2020 poderão se recuperar em 2021. “Esperamos que muitos projetos que tiveram de ser interrompidos por essa crise sejam reestabelecidos no próximo ano, o que, somado ao trabalho que já vem sendo desenvolvido pela equipe, resultará em grandes negócios”, afirma.

    PLANEJAMENTO - “Planejar 2021 não foi fácil”, reconhece Camacho, da Sandvik. Normalmente as discussões com este objetivo têm início em julho, que neste ano exigira constantes mudanças e realinhamentos de estratégia. “Notícias sobre possibilidades de alguma solução para a pandemia, antes do prazo inicialmente previsto, somadas a uma recuperação do mercado global e, mais importante, a uma previsão positiva do desempenho da indústria local em 2021, foram fundamentais para o estabelecimento de nossa estratégia de negócios”, diz. “Finalmente, chegamos a um objetivo que nos remete a um crescimento importante, com a manutenção de nossa estratégia de ganhar mercado e tornar os clientes mais competitivos”.

    Na Iscar também não foi tarefa simples planejar 2021. Apesar da alta no último trimestre e da entrada de pedidos indicando que o início do próximo ano será aquecido, incertezas irão perdurar enquanto as vacinas não chegarem à maioria da população. “Mesmo diante dessas incertezas, como somos otimistas, fizemos um planejamento ousado para 2021 e estamos confiantes que iremos atingi-lo”, afirma Barbosa. Na elaboração do plano, foram consideradas “a combinação da retomada do mercado com a necessidade da indústria de buscar produtividade e competitividade, que será suprida por empresas com amplo portfólio de produtos, time técnico-comercial preparado, estrutura de apoio e serviços, além de soluções de ferramentas especiais”.

    NÍVEIS PRÉ-PANDEMIA - Na opinião de Pereira, da Seco Tools, a maior parte das perdas de 2020 devem ser recuperadas já em 2021. “Os negócios já têm demonstrado recuperação, principalmente neste último trimestre, e a tendência é de manutenção deste crescimento no próximo ano. Porém, ainda é cedo para afirmar que será o suficiente para atingir aos níveis anteriores à pandemia”.

    “Os negócios já voltaram aos níveis pré-pandemia”, diz Milton Saito, vice-presidente da OSG Sulamericana. “Nos últimos meses tivemos resultados melhores do que os esperados”. A dúvida é se este padrão será mantido em 2021, já que parte dos resultados se deve à demanda reprimida. “O consumo se estabilizará e voltará aos níveis normais, talvez até um pouco melhores devido às dificuldades de importação devido à taxa cambial, fazendo com que a indústria nacional tenha a preferência de alguns clientes, o que é muito positivo para nós que temos produção nacional”, prevê.

    RITMO DA RETOMADA - Ao comparar os números da subsidiária brasileira com outras filiais da Ceratizit no mundo, Mantovani faz uma ressalva. “Em reais, tivemos crescimento devido ao incremento de market share. Porém, devido à enorme variação cambial, quando somos comparados em euros com outras subsidiárias, observa-se queda expressiva”, explica. No entanto, com o reaquecimento da indústria, a partir de setembro, a filial foi surpreendida com crescimento acima de 20% nas vendas. De acordo com Mantovani, as demais subsidiárias ainda não tiveram um aumento nestas proporções.

    No caso da Kennametal, comparando-se a outras filiais no mundo, a brasileira registrou retracão similar às demais. “Nossas operações na Ásia vêm se recuperando mais rápido do que em outras regiões, mas o Brasil também tem mostrado recuperação importante, principalmente pela rápida retomada das áreas de transportes pesados e de máquinas agrícolas”, diz Marcelo Campos. Frisa, porém, que um desafio à parte foi garantir a saúde financeira da empresa, pois grande parte dos produtos aqui comercializada é importada, sujeita às variações do dólar.

    TENDÊNCIA POSITIVA - Na visão de Fogliano, da Walter, a tendência é positiva em todos os segmentos consumidores de ferramentas de corte, principalmente na área de transporte pesado, agricultura, energia, além da gradativa recuperação da indústria automobilística.

    Em sua opinião, o ritmo da retomada dos negócios no Brasil depende de vários fatores, com destaque para a adoção de um plano de vacinação coerente para toda a população. Além disso, cita a estabilização do câmbio num patamar interessante para indústria exportadora e também para os insumos importados, da reforma tributária e de uma estabilização política que dê maior segurança para investimentos internos e externos. Também seria importante, em sua opinião, uma política de desenvolvimento industrial para o Brasil, de médio e longo prazos, o que, no entanto, ainda não se encontra no cenário político.