São Paulo, 29 de Maio de 2020

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    Embraer corta contratos; fornecedores demitem


    (17/05/2020) - A aviação comercial é certamente um dos setores mais afetados pela pandemia do coronavírus. Com a brusca queda nas viagens, a maioria dos aviões está ficando no chão, cenário que se reflete, obviamente, nas perspectivas dos fabricantes de aviões.

    É o caso da Embraer que, aliás, acaba de divulgar o balanço do primeiro trimestre de 2020. No período, entregou apenas 14 aviões, cinco comerciais e nove executivos, o pior primeiro trimestre desde 2010 e 36% menor do que o resultado de igual período do ano passado, quando a empresa entregou 22 aeronaves (11 comerciais e 11 executivos).

    Segundo a Embraer, o primeiro trimestre do ano é, historicamente, o periodo em que realiza menos entregas. De fato, dos 189 aviões entregues no ano passado, pouco mais de 10% das entregas foram realizadas no primeiro trimestre. Além disso, informou que,”em 2020, em particular, as entregas da aviação comercial no 1T20 foram também impactadas negativamente pela conclusão do processo de separação da unidade da Aviação Comercial da Embraer, em janeiro”. Vale lembrar que, no final de abril, a Boeing cancelou a compra da Embraer.

    No final do primeiro trimestre, quando os efeitos da pandemia no setor se tornavam mais claros, a companhia passou a reduzir os pedidos contratados com seus fornecedores, incluindo os prestadores de serviços de usinagem. Uma característica dessas empresas, bastante conhecida no mercado, é a forte dependência da Embraer. Algumas têm na fabricante de aviões seu único cliente; para outras, representa 80%, 90% dos negócios.

    Futuro incerto - Assim, não demoraram a surgir as primeiras demissões nos fornecedores. Pior, uma dessas empresas, a Status Usinagem, decidiu simplesmente fechar as portas e demitir seus 75 funcionários - decisão posteriormente revogada pela justiça, em ação impetrada pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, que contabilizou mais de 300 demissões entre os fornecedores da Embraer só no mês passado.

    “Frente a uma baixa de 80% no setor aeronáutico, foram inevitáveis algumas demissões”, disse Edson Silva, gerente da Qualidade da Lanmar Indústria Metaúrgica, em entrevista recente ao Usinagem-Brasil. “Porém, essas ações são necessárias para que possamos continuar na ativa, acreditando que podemos ir adiante mesmo em um quadro de recessão”, diz, frisando que para a Lanmar “a perda de capital humano é, atualmente, motivo de muita angústia e perplexidade”.

    No caso da Globo Usinagem, o setor aeronáutico responde por cerca de 90% do faturamento. Dessa fatia, aproximadamente 70% dos serviços são destinados à Embraer. “Sofremos uma queda de 60% no fornecimento de serviços para a Embraer. Infelizmente, foi preciso reduzir o quadro de pessoal e, também, precisaremos reduzir jornadas de trabalho para nos adequar ao mercado”, aponta Tiago Souza, analista comercial da empresa.

    A Globo Usinagem também atua na área de petróleo e gás, segmento que não foi tão afetado pela pandemia e que traz um alento para a empresa. “Talvez possamos aproveitar nossa expertise na fabricação de componentes para a área médica {a empresa está participando da força-tarefa que está produzindo peças para respiradores}. Estamos avaliando esse mercado. Falar do futuro é difícil, tudo é muito incerto. Por isso, estamos nos preparando para atuar no cenário econômico atual, sempre com agilidade para novas adaptações”, salienta,

    Dirço Soares da Costa Jr., diretor de Produção da Planifer, diz que este é um momento muito delicado para a economia global. Para ele, a recuperação do mercado não será algo fácil e as empresas terão que ser cada vez mais produtivas e competitivas: “Esta crise nos mostra um horizonte com novas tendências e novos padrões de mercado, temos de assimilar e enxergar estas novas oportunidades. Em resumo, o lema é não desistir e acreditar que o amanhã será melhor do que hoje”.

    Amauri Silva, diretor de Produção da Usimaza, também destaca o grande impacto da pandemia no mercado aeronáutico: “O setor foi muito afetado e deve demorar mais tempo para retornar à normalidade. Mesmo assim, continuamos com projetos de melhoria de processos e, também, não abortamos os investimentos que já estávamos fazendo em gestão do conhecimento”.

    Sobre um possível cenário pós-pandemia, a Liebherr-Aerospace Brasil informou ao Usinagem-Brasil que prefere deixar projeções para mais adiante, visto que as mudanças estão ocorrendo em ritmo acelerado no cenário atual.

    Opinião semelhante tem a Thyssenkrupp Aerospace, que informou estar avaliando com cautela os impactos da pandemia na sociedade e no mercado. Na visão da empresa, é prematuro fazer qualquer previsão neste momento.