São Paulo, 20 de Setembro de 2020

  • Notícias

    Grupo de voluntários imprime em 3D protetores faciais


    (29/03/2020) - Quando questionado sobre o início do projeto Face Shield for Life 3D, Leandro Brito, professor da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), já brinca: “A gente topou essa brincadeira, mas é uma brincadeira de gente grande”. Ao lado de docentes e pesquisadores de outras instituições (Bahiana, Uneb e CJCC), Brito coordena a iniciativa que tem o objetivo de produzir protetores faciais (face shields) para profissionais de saúde que estão na linha de frente do atendimento na pandemia de Covid-19.

    Em um primeiro momento, a intenção era produzir 200 unidades para o Instituto Couto Maia, localizado em Salvador e especializado em doenças infectocontagiosas. A produção é feita de maneira colaborativa e voluntária. Devido à rápida expansão do projeto, hoje já são 851 protetores faciais produzidos por 45 apoiadores de diversas áreas (chamados de makers) e 93 impressoras 3D em operação.

    Em uma pesquisa inicial, o grupo de pesquisadores identificou o modelo Prusa Protective Face Shield - RC3 de protetor facial, de código aberto (open source) e criado pela Prusa Printers, empresa de impressão 3D da República Tcheca. O modelo está sendo replicado em todo o mundo. “Percebemos que havia uma carência desse protetor. Os profissionais da saúde geralmente utilizam a máscara N-95, mas sem o protetor facial”, aponta Brito.

    Os protetores Face Shield evitam a contaminação da máscara N-95 e aumentam a sua vida útil. Podem ser lavados com água e sabão ou higienizada com álcool 70%. O produto atende as normas estabelecidas pela RDC Nº 356, de 23 de março de 2020 (sobre requisitos para produção de dispositivos médico prioritários em decorrência do SARS-CoV-2)

    O EPI é composto por duas peças de plástico PLA (fabricadas por impressora 3D), uma lâmina de acetato e uma borracha de fixação. “A nossa produção está baseada nas duas peças que podem ser impressas, que vão na parte superior e inferior da máscara. As demais peças - elástico e acetato - nós buscamos no mercado.”, explica Brito. Para dar o pontapé inicial no Face Shield for Life 3D, Brito conta que houve contato, principalmente via whatsapp, para captação de makers.

    Para levantar fundos, o grupo de coordenadores organizou uma vaquinha on line. Inicialmente, o valor necessário para atender a demanda era de R$ 10.000,00. “Batemos a meta em 12 horas e as pessoas começaram a nos procurar massivamente, querendo ajudar na vaquinha e na produção. Então, construímos um site para criar transparência e explorar o potencial do projeto”, diz o docente. O site traz dados atualizados dos processos de fabricação, quantidade de makers, quantidade de impressoras em operação, quem são os voluntários, entre outras informações.

    Até o momento cerca de 50 máscaras já foram entregues. Segundo Brito, o tempo de produção do kit (duas peças) passou por mudanças. Com ajustes nos parâmetros de fabricação, foi possível reduzir o tempo de manufatura das peças em torno de 50%, passando de três ou quatro horas para uma hora e meia, sem perda de qualidade do produto final.

    Além das 200 máscaras para o Instituto Couto Maia, o Face Shield for Life 3D se compromete a produzir os equipamentos até que se esgotem os recursos obtidos por meio da vaquinha online, que ainda está aberta. O excedente vai ser encaminhado para a SESAB - Secretaria de Saúde do Estado da Bahia, que será responsável pela distribuição dos equipamentos.

    Fábrica Virtual - Todos os makers estão trabalhando à distância, seguindo as orientações de quarentena e de isolamento social dos órgãos de saúde. As atividades estão divididas em grupos de gestão - equipe da produção, fabricação, compra de insumos, higienização, logística de retirada e entrega dos EPIs etc. “Estou chamando esse modelo de fábrica virtual, já que as atividades estão descentralizadas. Ninguém entra em contato com ninguém. O único grupo que está trabalhando junto é o da higienização”, explica Brito. A higienização das máscaras está sob a responsabilidade da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

    Neste modelo, o maker deixa a sua produção em um lugar combinado previamente com a SESAB (na portaria do prédio, por exemplo), que passa diariamente para recolher o material. Caso o maker tenha utilizado algum insumo do seu estoque, basta notificar a coordenação do projeto. Na hora da retirada das máscaras, o insumo é reposto.

    Hubs - O Face Shield for Life 3D cresceu tanto que os seus coordenadores começaram a sugerir que os makers se organizassem regionalmente para a produção de protetores. Na Bahia, além de Salvador, a iniciativa conta com hubs de impressão 3D em Jequié, Ilhéus, Vitória da Conquista e Bom Jesus da Lapa.

    No total já foram criados 16 times, em diferentes localidades, muitos deles fora da Bahia. Para atender esses hubs, foram criados manuais de montagem e higienização, além do envio de peças modelo. “Também criamos um manual que incentiva os grupos a criarem seus próprios hubs”, conta Brito.

    Para o professor, existem duas considerações importantes em relação ao projeto: a participação voluntária dos makers e a disseminação do conhecimento. “Eu sou um dos gestores, mas eu estou representando um time altamente competente de pessoas engajadas. Então, temos pessoas, em suas casas, colocando suas impressoras para rodar. Muitas pessoas entraram sem experiência e já estão ensinando outras pessoas. Os makers e o compartilhamento do conhecimento estão lado a lado. A ciência está fazendo toda a diferença”, conclui Brito.